Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

{Cotovia} e Companhia

Olá Pessoas! Bem-vindas ao blogue da Cotovia onde (m)ando {cotovia}ando! Sigam a cor deste vôo: "Nascemos poetas, só é preciso lembrá-lo. Saber é quase tudo. Sentir é o Mundo." @mafalda.carmona

Olá Pessoas! Bem-vindas ao blogue da Cotovia onde (m)ando {cotovia}ando! Sigam a cor deste vôo: "Nascemos poetas, só é preciso lembrá-lo. Saber é quase tudo. Sentir é o Mundo." @mafalda.carmona

{Cotovia} e Companhia

11
Dez23

É Natal, Nasceu... Jesus.


Cotovia@mafalda.carmona

IMG_20231211_105624.jpg

 

É Natal, Nasceu... Jesus.

{O meu conto de Natal}

**

Conceição corria as mãos pelas folhas da cor da lua minguante do álbum, sem som, naquilo que parecia um sonho emudecido, ressequido pelo ar salgado da maresia. E aquele outro som voltava a fazer-se ouvir, como uma sirene, ou um lamento no nevoeiro, acompanhado de um bater de muitas caudas de peixe em água rasa.

 

Esse arrazoado agudo, silvo avermelhado, precedido pelos sinos do torreão do centro da vila em tons de branco, a anunciar o meio-dia, ou seria da meia-noite, missa do galo? Já não tinha a certeza. Seria de dia, seria de noite, na meia-lua da pequena varanda, pendurada num olhar já meio roubado pelas contas de somar, café, açúcar de cana, um quarteirão de bolachas, argolas cobertas de aveludadas capas de cor-de-chocolate, a descobrir na primeira dentada uma fruta cristalizada, a saber a um dia de casamento em Maio, com todas as perfumosas flores de laranjeira a girar em roda, enquanto dançava com o seu par, ou sozinha, conforme a música a tocar e os pés a desejarem, debaixo de chuva miudinha, da abençoada boda com a vida.

 

Por vezes, pensava ser o seu coração a bailar, tão leve, em voo de gaivota, a espraiar-se, assim devagar, muito devagar, em sombras de palmeiras e coqueiros, sob a batuta do murmúrio da maré cheia, recostadas sobre as areias quentes, mesmo se batidas pelo vento desnorteado, breve desconcerto para as dores de Sofia, ou seria Conceição?

 

Ora lhe parecia ser Sofia, segura, confiante, ao volante do carro cor-de-rosa brilhante, uma excentricidade para aquela época, ou, na verdade, para qualquer época, a conduzir aquela máquina metálica veloz, libertadora. Ora era Conceição e Lucas, no banco de napa, padrão de cadeira de palhinha, bem sentados lá atrás, vigiados pelo espelho retrovisor, encostados um ao outro, num dia de véspera de Natal, vestidos com as roupas mais brilhantes, cores de especiarias, a envolver com cuidado os bracinhos redondos e bronzeados, com chapéus a proteger umas pestanas infinitas, numas pálpebras a pulsar debaixo dos sonhos multicoloridos, com sabor de frutas tropicais e paisagens exóticas, mesmo a meio, entre as equatoriais e as do trópico de capricórnio, na medida em que a estrada galopava pelo alcatrão cinza esbatido, transformado em terra quente, poeirenta como lençóis a cobrir as marcas, e as dores, do tempo.

 

Dores de antigamente, como as de crescimento, dores de tédio, as que doem nos calcanhares quando os sapatos ficam apertados porque estão a contar as horas aborrecidas que faltam até ver os faróis do pai a chegar, por entre as filas de candeeiros de luzes foscas, plantados na beira da estrada a serpentear pelos campos bravios de chorinas junto ao areal, esse comilão, a avançar todos os meses mais um bocadinho, a tornar a estrada fininha, fininha, uma fatia de toucinho do céu, esse a fazer as delícias da noite, mas só um bocadinho, para não fazer mal por causa dos açúcares, e toda essa doçura a saber a ser levada pela mão, pelo irmão, assim fosse o tempo de, finalmente, numa derradeira curva do caminho em solavancos, ver os olhos esbugalhados, cheios de luz, da casinha, com telhado de palha em risco ao meio, quase tão penteado como o cabelo de Lucas, depois de dar mergulhos nas ondas do Atlântico.

 

Mas não sabia se eram essas as dores que recordava, ou as que sentia, as de envelhecimento, as sentidas nos ossos e na aceitação, as que obrigavam, Sofia, Conceição ou depois Mariana, a remexer-se no cadeirão da sala, iluminado pelas chispas de canela nas fatias douradas, macias como nuvens de sonhos em calda de açúcar e raspas de limão, estrelas cadentes que não magoam as gengivas, nem a memória das perguntas sem resposta, de onde vêm os presentes quando não há pinheiros mas coqueiros, quando não há chaminés nem lareiras, quando o calor de Dezembro faz o sol cozer os tijolos de barro vermelho, quando as renas do pai Natal são riscadas de preto e branco, e as estrelas da noite, não a mais longa, mas a mais curta, são uma galáxia leitosa, tão clara e brilhante como o sorriso da mãe Sofia quando o pai chegava transportado pelas rodas redondas do carro, de nome tão redondo como elas, João, carregando um braço cheio de presente, a encaminhar todos para a beira de uma fogueira a tremeluzir de felicidade, em iluminações mais fulgentes do que qualquer promessa brilhante nos reclames nos topos dos prédios da cidade, debaixo do telheiro, no terreiro onde ficavam quase até à meia-noite, em jogos e canções de guitarra e cavaquinho, em amena cantoria e cavaqueira com os amigos da família, e, aí sim, um espaço cheio de sons, embalados pelo mar, até que as brincadeiras vão adormecendo debaixo da rede mosquiteira, a ceia já esquecida dentro da barriga, onde o medo dos tubarões é apaziguado pelas festas e beijinho de boa noite, dorme bem até amanhã, é dia de Natal, as prendas prometidas a espreitar debaixo da cama.

 

Acorda Sofia, do sonho de neves, azevias e pão fresco, é dia de Natal em 1933, acorda João, na mesa de cabeceira o cântaro de barro decorado com sopro da planície, na noite fria, madrugada gelada de 1930, acorda Conceição, acorda Lucas, passou o ano de 1966, peguem nos chapéus de sol e corram para a praia, a mãe e o pai têm uma câmara fotográfica, a noite foi boa, os presentes abertos debaixo de um sol caloroso, a dar as boas vindas a uma manhã do dia mais emocionante do ano, acorda José, acorda Mateus, a tia avó trouxe água de côco, veio da quitanda que abriu neste ano de 1992, acorda, nasceu em 2023, a menina Mariana, chora pela primeira vez num quarto com janelas em vidro triplo, lá fora estão os flocos de neve a fazer corridas, e cá dentro o choro voa rápido até ao colo mais antigo da bisavó, toca o telefone, nasceu Sofia, nasceu João, nasceu Conceição, nasceu Lucas, nasceu José, nasceu Mateus, nasceu Mariana, nasceram todas as estrelinhas que estão agrupadas nos marcos auto-colantes do álbum de fotografias, ciosamente guardadas por Sofia, como a sua memória a mal guardar o nome esquecido do marco da vila do primeiro natal, e igual ao que anuncia a chegada da feira da Aldeia Natal, com pula-pulas, farturas, pão com chouriço quente, algodão doce cor-de-rosa, comboios a apitar e o carrossel a girar, sempre em círculos para a frente sem sair do mesmo lugar, caminhando para o futuro sem parar.

 

Fecha-se o álbum, fecha-se a aldeia, fecham-se as luzes, está na hora de abrir alas, veio nova vida, está o ano novo quase a chegar. No perfil do horizonte sereno de Sofia, emoldurado por um sorriso tão lindo como a sua idade, cabelos muito branquinhos como as neves da sua aldeia, as areias da sua vida adulta, as amendoeiras das paisagens a perder de vista que a sua idade já não conseguia alcançar e das nuvens que a esperam na próxima estação da vida.

 

O telefone, no regaço, continua a tocar, moderna comunicação com imagem desfocada, um postalito pequeno, que escreve, conta e fala grandes conversas, ali vai o botão a deslizar e do lado de lá estão novos álbuns, fotografias de um futuro a quem Sofia, em voz de pequenina criança outra vez, deseja muitas Felicidades, bom Ano, muita Saúde, Paz, Vivas, para este ano de 2024, que seja uma época de fraternidade e Amizade daqui até a eternidade imutável do espírito de Natal, oxalá seja Natal todos os dias, beijinhos meus amores, sim, claro, aqui estou para um novo ano e para todos os que forem, para vós, enquanto Deus quiser.

 

Feliz Natal e Boas festas!

 

Mafalda Carmona

11.12.2023 | 11:00 hr, em resposta a imsilva

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

33 comentários

Comentar

Pág. 1/2

Quem é esta Cotovia?

Sigam-me Noutros Vôos

{Instagram}

{Cotovia} Instagram Feed

{Facebook}

Ilustração Perfil @mafalda.carmona

Vôos de Outras Aves

Calendário

Dezembro 2023

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31

Voar ao calhas

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
Blogs Portugal

{Cotovia} em Colectânea

Sinopse A Coletânea “ERA UMA VEZ…ALENTEJO” é uma obra que inclui poemas, fotografias, ou obras artísticas originais cujo tema e foco principal seja o Alentejo, e está abrangida no projeto europeu “Antologias Digitais”. Tendo a cidade de Évora sido recentemente nomeada Capital Europeia da Cultura 2027, faz todo o sentido homenagear não só a cidade como também toda a beleza circundante e riqueza cultural da região, e observar as maneiras como estas inspiram as pessoas de vários pontos do globo. Autor: Vários Formato: pdf Edição: 08.05.2023 Ilustração capa e contracapa: Ana Rosado; Vítor Pisco Editora Recanto das LetrasBaixar e-book

{Cotovia} em Antologia

Sinopse Aquilo que temos vindo a testemunhar desde 20 de fevereiro de 2022, provoca em nós sentimentos complexos, melhor expressados através da arte. Esta antologia recolhe estes sentimentos, e distribui-os para quem neles se reconforta e revê. Para o povo ucraniano, fica a mensagem de acolhimento, não só em tempos de crise, mas sempre. Porque é difícil expressar a empatia por palavras, mas aqui fica uma tentativa, por 32 autores, nacionais e internacionais. Autor: Instituto Cultural de Évora Formato: pdf Edição: 14.08.2023 Ilustração capa e contracapa: Ana Rosado Editora Recanto das Letras

{Apoio à Vítima}

A APAV tem como missão apoiar as vítimas de crime, suas famílias e amigos, prestando-lhes serviços de qualidade, gratuitos e confidenciais. É uma organização sem fins lucrativos e de voluntariado, que apoia, de forma qualificada e humanizada, vítimas de crimes através da sua Rede Nacional de Gabinetes de Apoio à Vítima e da sua Linha de Apoio à Vítima – 116 006 (dias úteis: 09h – 21h). Aquando de um crime, muitas pessoas, para além da vítima directa, serão afectadas directa ou indirectamente pelo crime, tais como familiares, amigos, colegas. A APAV existe para apoiar. Os serviços da APAV são GRATUITOS e CONFIDENCIAIS.

{Notícias Sobre a Ucrânia}

A UE condena com a maior veemência a agressão militar não provocada e injustificada da Rússia contra a Ucrânia. Trata-se de uma violação flagrante do direito internacional, incluindo a Carta das Nações Unidas. Apelamos à Rússia para que cesse imediata e incondicionalmente todas as hostilidades, retire o seu pessoal militar e equipamento de todo o território da Ucrânia, no pleno respeito pela soberania, independência e integridade territorial da Ucrânia dentro das suas fronteiras internacionalmente reconhecidas. A UE apoia os princípios e objetivos fundamentais da fórmula de paz da Ucrânia enquanto via legítima e credível rumo a uma paz global, justa e duradoura.
Em destaque no SAPO Blogs
pub