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{Cotovia} e Companhia

Olá Pessoas! Bem-vindas ao blogue da Cotovia onde (m)ando {cotovia}ando! Sigam a cor deste vôo: "Nascemos poetas, só é preciso lembrá-lo. Saber é quase tudo. Sentir é o Mundo." @mafalda.carmona

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{Cotovia} e Companhia

11
Jun24

Zero e Graça


Cotovia@mafalda.carmona

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{Série} Frases Ad-Hoc

 

Esta {Série} Frases Ad-Hoc sugere uma continuidade ou uma colecção de pensamentos e narrativas improvisadas ou espontâneas, que podem, ou não, vir a ter uma continuação ou serem o início de algo mais completo. Aqui vos deixo mais uma partilha desta série, desta vez um micro-conto que nasceu inicialmente em língua inglesa e que transpus para português. Espero que gostem deste micro-conto "Zero and Grace Tale".

 

> "O amor é composto de uma única alma habitando dois corpos." - Aristóteles

> "Quatro, tres, dos, uno... Nada." - U2

 

(En)

My only one private tale is that I am Zero, finding eternal time and space within your endless love. In that unknown mathematics, I am flying to reach you, making a looping eight.

Zero I am, as an even or heavenly number that dances in gravity, and Grace hides herself in the world's rounded words, chasing one another.

Together we play, envision the infinite layers of possibilities created when the real and the abstract become one.

Grace lives in Zero gravity; Zero has Grace craved inside him, and they lived happily ever after until the end of this once upon a time.

 

(Pt)

O meu conto preferido é um em que sou Zero, procurando o tempo e o espaço eternos dentro do teu amor infinito. Nessa matemática desconhecida, vôo em loop para te alcançar, formando um oito.

Zero eu sou, um número justo ou celestial que dança na gravidade e a Graça esconde-se nas palavras arredondadas do mundo, onde se perseguem mutuamente.

Juntos brincamos de imaginar as infindas camadas de possibilidades que se geram quando o real e o abstrato se tornam um só.

Graça vive em Zero gravidade; Zero tem Graça gravada por dentro, e viveram felizes para sempre até ao fim deste era uma vez.

 

@mafalda.carmona 11.06.2024 | 05:55hrs

 

#microconto #poesia #filosofia #amorinfinito #abstrato #narrativa #criação #literatura #fc #souzero #nada #graça #prosapoética #cotovia #cotoviando #escrita #escritacriativa #ficção

 

#microstory #poetry #philosophy #infiniteLove #abstract #storytelling #creativity #literature #shorttales #inspiration #cf #zero #grace #lark #fiction #MathematicsInArt #PhilosophicalStories

05
Fev24

O Mestre


Cotovia@mafalda.carmona

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(*1)

E O Rei Cisne
{Conto}

"Leis, Ordens e Costumes para Cisnes, 1482, reinado de Edward IV:


O Cisne é uma pura e graciosa besta.

A sua penugem é branca como a neve, igualmente breve,

pois significa a natureza fugaz da coisa bela.

Embora desejemos que o nosso esplendor seja eterno,

nada deve permanecer no que outrora foi." (*2)

 

Nos meandros da minha existência, onde a tarefa de guardião dos cisnes reais transcende o limite do tempo, desde os dias precoces em que abandonei o Slimbridge Wetland Centre com apenas 18 meses de idade, percebo que as experiências no cumprimento do meu cargo definem a minha essência. Mas, no emaranhado de normas e deveres, aos quais me submeto com fidelidade, encontro uma satisfação profunda nesta responsabilidade de mestre, guardião ou, nos dias actuais, guarda dos cisnes.

A vida, entretanto, não é um conjunto de obrigações impessoais. Desdobra-se, felizmente, em momentos de lazer que se tornam essenciais, um refúgio que transcende o dever. Nessas pausas, sinto uma satisfação semelhante ao momento em que o choco dos ovos cessa, e o leve chilrear das crias preenche o ar.

Ao regressar ao ninho após um dia de afazeres, despojo-me do casaco do fato vermelho, uma peça que se tornou um símbolo pessoal, sob o manto de penas brancas e macias. Desde os tempos da televisão a preto e branco, cultivo a minha lealdade ao canal da BBC, uma homenagem à Soberana, que já não está entre nós, mas cujas preferências continuo a honrar.

Além de assistir aos programas na televisão, maioritariamente sobre vida selvagem, nesta estação exigente, procuro mergulhos alternativos, que não os do lago gélido, como o da leitura. As escolhas de leitura não são meramente uma preferência, mas um portal para a minha individualidade e carácter. Cada autor seleccionado é um convite para que outros entrem na minha esfera mais íntima, a minha mente.

Ao contrário da leitura, que abraço conforme as minhas expectativas e preferências, também me dedico a escrever, mas a escrita desafia-me e delimita-me, impondo-me outro grau de exigência; "Como encontrar a palavra precisa para descrever, por exemplo, a beleza da paisagem ou dos cisnes sob o meu cuidado?", pondera em voz alta, enquanto afaga as penas do peito, esquecendo a pena de escrita perdida no meio das penas da sua asa. Continuando as suas divagações acrescenta para si mesmo, mas com a secreta confiança de que a sua companheira o escuta: " Contudo, a escrita não é uma mera manifestação de liberdade; tem de ser exercida com a necessária transparência, ou leveza, da minha essência. A ausência de verdade, decerto comprometeria a minha atribuição como cuidador, afastando os magníficos seres sob minha tutela, como se eu me transformasse numa mancha de bolor no tranquilo lago."

A honestidade, compreendo, é a base sobre a qual construo a minha existência. Não me vejo como o proclamado "rei dos cisnes", uma designação que rejeito. Evito a soberba, pois sei que ela me levaria à perda de respeito por mim mesmo e pelos outros, um afastamento não apenas dos meus pares, mas também dos meus antepassados e, inaceitável, do verdadeiro monarca, Sua Majestade, o Rei Charles III.

Embora nunca tenha dirigido cumprimentos pessoais a Sua Excelência Alteza Real, sinto-me em grande sintonia através do gosto comum pelas actividades na natureza e jardinagem, embora eu me dedique mais à limpeza e preservação dos pequenos e grandes lagos. Ambos contribuimos para preservar os costumes e um modo de vida enraizado em tradições imutáveis, mantendo vivo o conhecimento essencial para a interacção entre o mundo exterior e a minha existência singular, onde a minha arte forma um território maior que o simples ninho de um metro de diâmetro.

Ao partilhar o conhecimento com a próxima geração, reconheço a riqueza que essa troca proporciona. Encarregado de transmitir este legado aos netos, com a ajuda dos meus filhos e da companheira de uma vida inteira, testemunho com alegria o interesse dos mais jovens em aprender e seguir os meus vôos. Como eles, sempre fui curioso e criativo, recordando com saudade as iteracções, quando respondia pacientemente a uma enxurrada de questões. "De onde vêem? Existem em estado selvagem na natureza? Precisam de protecção? O que é o WWT, o WWF? É admissível o comércio? Quanto tempo vivem?".

Comprometido com a preservação desta arte, estou determinado a resgatar a criatividade e a partilhá-la como contribuição para a salvação do mundo. Apesar do tempo que me resta ser insuficiente para fazer mais, quero abrir uma pequena academia para passar esse conhecimento além da esfera familiar. Será a minha contribuição mais significativa para que todos possam conhecer e respeitar esta forma de vida.

Meticulosamente, preparo-me para redigir a missiva, alisando cuidadosamente as plumas antes de comunicar ao meu prezado Rei esta notícia extraordinária. Acredito que ele aceitará receber este humilde súbdito e planeio informar o Soberano sobre a minha pretensão, para que a passagem do testemunho seja aprovada, permitindo que outros interessados continuem esta tradição. "Ai ai, onde estará a pena de escrita?", questiono, na urgência de redigir a missiva. A minha companheira, imperturbável, numa elegância extrema, vence os poucos metros que nos separam no nosso lago de inverno coberto, como uma bailarina, e, sem esforço, recolhe de uma das minhas asas a pena de escrita perdida. "Não sei o que seria de mim sem ti. Obrigada querida." Agradeço e questiono:" Achas que o Rei me receberá?" Olha-me longamente e enquanto se afasta responde: "Espero que não querido, receio que como os teus antecessores, fiques tão encantado com o palácio, que não retornes, mas lamento informar, no Palácio Real, existem coisas que não vais querer saber, tal como o meu bater de patas me sustenta levemente, sem que vejas a violência por baixo das águas."

O rei cisne fica a cismar sobre as palavras da companheira, decide deixar cair a missiva que se dissolve nas águas, e guardar a pena para outras escritas.

Fim

 

(*1) Imagem de Wikipédia.com, data inicial de publicação 2007, créditos actualizados na data de 13h25min de 11 de Julho de 2022, sob licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional, utilizada sem alterações, com efeito meramente ilustrativo. Link: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Schwanflug22.jpg como parte integrante do artigo principal, link aqui: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Cisne

(*2) Transcrito do episódio 6 da sexta temporada da série "The Crown".

15
Dez23

O Livro-Flor de Natal


Cotovia@mafalda.carmona

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{O meu (outro) conto de Natal}

O Livro-Flor de Natal

 

Certo dia, recebi um presente fenomenal. Encontrei-o dentro do sapatinho, bem escondido debaixo da árvore de Natal, revelou-se extraordinário: um livro! Foi mesmo o máximo, o presente mais fantástico de sempre, uma maravilha. Mas o melhor que os livros têm, além das palavras, e das imagens bonitas, são as folhas. Umas folhas pesadas, encantadas, que fazem um som grave ao serem folheadas, outras mais leves, quase transparentes, como pétalas. Além de musicais, a fazer crepitar as pontas dos dedos, cheiram aos dias das pessoas quando são pequenas, como pinheiros, primavera, erva-doce, rebuçados, outras coisas doces, cheirosas, e por isso chamei-lhe "Livro-Flor".

 

Quando o leio, sinto essa vida de coisas pequeninas. Fico de coração leve, muito leve e até respiro melhor.

 

E fico a matutar numa pergunta: "Será que os corações pequenos, quando crescem, ficam tão pesados quanto as flores encorpadas, como a flor titã, e tombam?"

 

Mas não, o meu coração, por enquanto, fica transformado em coelho branco, de orelhas curtas, como 'c's, e um 'X' no lugar da boca, dois 'ó's no lugar dos olhos, uns 'l's nos bigodes, e, alegre, pula, ou salta como pipocas frescas, doces ou salgadas, acabadas de fazer.

 

Também gosto do meu Livro-Flor porque é uma espécie de cofre, onde ficam guardadas as recordações dos meus mais crescidos, dos grandes. Foi com eles que aprendi a desenhar as letras do meu nome, e me ensinaram o 'b' 'a' 'bá', em letras bonitas no quadro de giz. Ainda demorei até conseguir ler e aprender a história do meu país, onde as crianças podem caminhar, todas juntas, em céu aberto, os corações a bater ao compasso dos mini passos a avançar pela estrada, de mãos dadas com as suas pessoas crescidas, até ao pátio da escola.

 

Levam ao peito e na alma, cada vez mais fortes, todas as coisas que aprendem: amizade, fraternidade, igualdade, bondade, solidariedade, e tantas outras palavras corajosas.

 

Sei que não está tudo neste Livro-Flor, mas ainda assim está lá muita coisa. E germinam lá mais coisas, algumas fantasias, fábulas, ficções, outras realidades muito grandes e pesadas, outras mais ligeiras, cómicas, a fazer cócegas, em risos mesmo iguais aos de um tempo lá atrás, quando era possível brincar às escondidas, às casinhas, debaixo da mesa da consoada, do almoço de Natal, e volto a ser uma pessoa pequena, para brincar, para aprender de cor as lenga-lengas, e as canções.

 

Sobretudo gosto dele pois, quando o leio, acontece magia e posso ser um coelho, uma ovelha, um pássaro, raposa, mocho, um poeta, aviadora, astronauta, médica, escritor, aventureiro, polícia, investigadora, alfaiate, maestro, pescador, bombeira, agricultora, apicultor, seja o que for que aquelas letras alinhadas em substantivos, adjectivos, artigos, verbos, a formarem frases, agrupadas em parágrafos, são, ou sonham ser.

 

Gosto mesmo muito do meu Livro-Flor, acreditem, por isso regresso com frequência ao seu aconchego, mas apesar de tudo o que é bom, sinto igualmente preocupação, porque os corações dos mais grandes, digo, dos maiores, os crescidos, estão muito mais pesados, como troncos milenares, e esses ramos, de tão pesados, quebram, e ficam, depois, irremediavelmente partidos, tristes com o sucedido, durante algum tempo, ou para sempre, se o peso for realmente muito grande, maior do que o peso do coração, ele deixa de ter lugar, seja em que folha, ou pétala, for.

 

Agora que penso neles, nos crescidos, penso se seria possível construir uma tipografia onde coubesse toda a dor, e, em seguida, trocar a ordem das letras e das palavras, reescrever as histórias, escrever novos Livros-Flor, e oferecer paz, alegria, saúde, corações leves e acrescentar ainda palavras amáveis, bondosas, apaziguadoras, pacificadoras, que afastassem toda a violência e dor, recuperassem a fé na humanidade, e, a dignidade.

 

Há outra coisa fantástica: desde que o tenho, percebi que ele é muito meu amigo. Que nunca mais vou estar sozinha, pois ele foi capaz de me curar da minha solidão. E também me contou que tem muitos livros amigos, irmãos, primos, uma família inteira. Uns livros são mais pequenos, uns mais leves, outros mais pesados, uns de capa rija, outros de capa colorida.

 

Tão depressa quanto possível, garantiu, vai apresentar-me à família toda. Diz que grande parte vive num sítio chamado Biblioteca, onde há outros que são bastante diferentes, singulares, são desdobráveis, chamados mapas, que ensinam a chegar a todo o lado. E mesmo a sítios somente existentes na minha cabeça. Parece que se chamam mundos imaginários, habitam dentro de cada uma das pessoas. Todos temos muitas histórias dentro de nós, e existem também naqueles que nos rodeiam, que podemos ler, contar, escrever e partilhar.

 

Mais, quando leio, sinto que fui, sou, e serei, livre. Livre como um melro a aquecer as penas negras ao sol. Uma gaivota a voar, uma cotovia a cantar. Livre de ir a qualquer lugar, a qualquer país, livre, seja eu quem for, grande ou nem por isso, com mais ou menos idade, de sapatos ou galochas, de pés no chão ou aos saltinhos, com sol e com chuva, de verão ou de inverno.

 

Livre até para escrever no meu coração um calendário onde todos os dias são 25 de Dezembro. O dia em que festejamos um aniversário especial e em que recebi o meu Livro-Flor, também especial. Para o ler, ou para o escrever, até as folhas estarem cheias dessa música bonita, que, quando partilhada nunca é subtraída, sempre amplificada, numa melodia espantosa:

 

"É Natal, é Natal, um dia especial!"

 

É dia 25 de Dezembro, dia de Natal, dia 25 de Dezembro vezes 365 dias do ano, porque os livros também me ensinaram as contas de somar, multiplicar, e dividir... felicidade. Mostraram-me como é especial dividi-la para a partilhar e espalhar, como jardins de Livros-Flor, a atapetar e colorir todo o mundo com essa felicidade boa, que traz paz. Com muitos Livros-Flor de Natal, para dar, oferecer, ser, estar, presente, cada novo dia é uma oportunidade para conhecer novas histórias, livros e pessoas, pois a magia do Natal é tão forte que pode alcançar cada um dos dias do ano, e da vida do quotidiano, para escrever histórias que me fazem sorrir, aquelas que aquecem o coração e iluminam o caminho, pois cada página do Livro-Flor está recheada de amor.🌟

 

Feliz Natal e Boas festas!

 

Mafalda Carmona

15.12.2023 | 00:02 hr, em resposta a imsilva

Para lerem o outro conto da Cotovia, aqui.

Para lerem todos os contos deste Natal 2023, até agora, a colectânea dos contos no blogue da imsilva, aqui.

Um agradecimento especial ao blog da Cheia, pela inspiração para este conto de Natal, através do seu comentário ao conto anterior da Cotovia, "É Natal, Nasceu... Jesus.", obrigada caro José Silva Costa.

11
Dez23

É Natal, Nasceu... Jesus.


Cotovia@mafalda.carmona

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É Natal, Nasceu... Jesus.

{O meu conto de Natal}

**

Conceição corria as mãos pelas folhas da cor da lua minguante do álbum, sem som, naquilo que parecia um sonho emudecido, ressequido pelo ar salgado da maresia. E aquele outro som voltava a fazer-se ouvir, como uma sirene, ou um lamento no nevoeiro, acompanhado de um bater de muitas caudas de peixe em água rasa.

 

Esse arrazoado agudo, silvo avermelhado, precedido pelos sinos do torreão do centro da vila em tons de branco, a anunciar o meio-dia, ou seria da meia-noite, missa do galo? Já não tinha a certeza. Seria de dia, seria de noite, na meia-lua da pequena varanda, pendurada num olhar já meio roubado pelas contas de somar, café, açúcar de cana, um quarteirão de bolachas, argolas cobertas de aveludadas capas de cor-de-chocolate, a descobrir na primeira dentada uma fruta cristalizada, a saber a um dia de casamento em Maio, com todas as perfumosas flores de laranjeira a girar em roda, enquanto dançava com o seu par, ou sozinha, conforme a música a tocar e os pés a desejarem, debaixo de chuva miudinha, da abençoada boda com a vida.

 

Por vezes, pensava ser o seu coração a bailar, tão leve, em voo de gaivota, a espraiar-se, assim devagar, muito devagar, em sombras de palmeiras e coqueiros, sob a batuta do murmúrio da maré cheia, recostadas sobre as areias quentes, mesmo se batidas pelo vento desnorteado, breve desconcerto para as dores de Sofia, ou seria Conceição?

 

Ora lhe parecia ser Sofia, segura, confiante, ao volante do carro cor-de-rosa brilhante, uma excentricidade para aquela época, ou, na verdade, para qualquer época, a conduzir aquela máquina metálica veloz, libertadora. Ora era Conceição e Lucas, no banco de napa, padrão de cadeira de palhinha, bem sentados lá atrás, vigiados pelo espelho retrovisor, encostados um ao outro, num dia de véspera de Natal, vestidos com as roupas mais brilhantes, cores de especiarias, a envolver com cuidado os bracinhos redondos e bronzeados, com chapéus a proteger umas pestanas infinitas, numas pálpebras a pulsar debaixo dos sonhos multicoloridos, com sabor de frutas tropicais e paisagens exóticas, mesmo a meio, entre as equatoriais e as do trópico de capricórnio, na medida em que a estrada galopava pelo alcatrão cinza esbatido, transformado em terra quente, poeirenta como lençóis a cobrir as marcas, e as dores, do tempo.

 

Dores de antigamente, como as de crescimento, dores de tédio, as que doem nos calcanhares quando os sapatos ficam apertados porque estão a contar as horas aborrecidas que faltam até ver os faróis do pai a chegar, por entre as filas de candeeiros de luzes foscas, plantados na beira da estrada a serpentear pelos campos bravios de chorinas junto ao areal, esse comilão, a avançar todos os meses mais um bocadinho, a tornar a estrada fininha, fininha, uma fatia de toucinho do céu, esse a fazer as delícias da noite, mas só um bocadinho, para não fazer mal por causa dos açúcares, e toda essa doçura a saber a ser levada pela mão, pelo irmão, assim fosse o tempo de, finalmente, numa derradeira curva do caminho em solavancos, ver os olhos esbugalhados, cheios de luz, da casinha, com telhado de palha em risco ao meio, quase tão penteado como o cabelo de Lucas, depois de dar mergulhos nas ondas do Atlântico.

 

Mas não sabia se eram essas as dores que recordava, ou as que sentia, as de envelhecimento, as sentidas nos ossos e na aceitação, as que obrigavam, Sofia, Conceição ou depois Mariana, a remexer-se no cadeirão da sala, iluminado pelas chispas de canela nas fatias douradas, macias como nuvens de sonhos em calda de açúcar e raspas de limão, estrelas cadentes que não magoam as gengivas, nem a memória das perguntas sem resposta, de onde vêm os presentes quando não há pinheiros mas coqueiros, quando não há chaminés nem lareiras, quando o calor de Dezembro faz o sol cozer os tijolos de barro vermelho, quando as renas do pai Natal são riscadas de preto e branco, e as estrelas da noite, não a mais longa, mas a mais curta, são uma galáxia leitosa, tão clara e brilhante como o sorriso da mãe Sofia quando o pai chegava transportado pelas rodas redondas do carro, de nome tão redondo como elas, João, carregando um braço cheio de presente, a encaminhar todos para a beira de uma fogueira a tremeluzir de felicidade, em iluminações mais fulgentes do que qualquer promessa brilhante nos reclames nos topos dos prédios da cidade, debaixo do telheiro, no terreiro onde ficavam quase até à meia-noite, em jogos e canções de guitarra e cavaquinho, em amena cantoria e cavaqueira com os amigos da família, e, aí sim, um espaço cheio de sons, embalados pelo mar, até que as brincadeiras vão adormecendo debaixo da rede mosquiteira, a ceia já esquecida dentro da barriga, onde o medo dos tubarões é apaziguado pelas festas e beijinho de boa noite, dorme bem até amanhã, é dia de Natal, as prendas prometidas a espreitar debaixo da cama.

 

Acorda Sofia, do sonho de neves, azevias e pão fresco, é dia de Natal em 1933, acorda João, na mesa de cabeceira o cântaro de barro decorado com sopro da planície, na noite fria, madrugada gelada de 1930, acorda Conceição, acorda Lucas, passou o ano de 1966, peguem nos chapéus de sol e corram para a praia, a mãe e o pai têm uma câmara fotográfica, a noite foi boa, os presentes abertos debaixo de um sol caloroso, a dar as boas vindas a uma manhã do dia mais emocionante do ano, acorda José, acorda Mateus, a tia avó trouxe água de côco, veio da quitanda que abriu neste ano de 1992, acorda, nasceu em 2023, a menina Mariana, chora pela primeira vez num quarto com janelas em vidro triplo, lá fora estão os flocos de neve a fazer corridas, e cá dentro o choro voa rápido até ao colo mais antigo da bisavó, toca o telefone, nasceu Sofia, nasceu João, nasceu Conceição, nasceu Lucas, nasceu José, nasceu Mateus, nasceu Mariana, nasceram todas as estrelinhas que estão agrupadas nos marcos auto-colantes do álbum de fotografias, ciosamente guardadas por Sofia, como a sua memória a mal guardar o nome esquecido do marco da vila do primeiro natal, e igual ao que anuncia a chegada da feira da Aldeia Natal, com pula-pulas, farturas, pão com chouriço quente, algodão doce cor-de-rosa, comboios a apitar e o carrossel a girar, sempre em círculos para a frente sem sair do mesmo lugar, caminhando para o futuro sem parar.

 

Fecha-se o álbum, fecha-se a aldeia, fecham-se as luzes, está na hora de abrir alas, veio nova vida, está o ano novo quase a chegar. No perfil do horizonte sereno de Sofia, emoldurado por um sorriso tão lindo como a sua idade, cabelos muito branquinhos como as neves da sua aldeia, as areias da sua vida adulta, as amendoeiras das paisagens a perder de vista que a sua idade já não conseguia alcançar e das nuvens que a esperam na próxima estação da vida.

 

O telefone, no regaço, continua a tocar, moderna comunicação com imagem desfocada, um postalito pequeno, que escreve, conta e fala grandes conversas, ali vai o botão a deslizar e do lado de lá estão novos álbuns, fotografias de um futuro a quem Sofia, em voz de pequenina criança outra vez, deseja muitas Felicidades, bom Ano, muita Saúde, Paz, Vivas, para este ano de 2024, que seja uma época de fraternidade e Amizade daqui até a eternidade imutável do espírito de Natal, oxalá seja Natal todos os dias, beijinhos meus amores, sim, claro, aqui estou para um novo ano e para todos os que forem, para vós, enquanto Deus quiser.

 

Feliz Natal e Boas festas!

 

Mafalda Carmona

11.12.2023 | 11:00 hr, em resposta a imsilva

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{Cotovia} em Colectânea

Sinopse A Coletânea “ERA UMA VEZ…ALENTEJO” é uma obra que inclui poemas, fotografias, ou obras artísticas originais cujo tema e foco principal seja o Alentejo, e está abrangida no projeto europeu “Antologias Digitais”. Tendo a cidade de Évora sido recentemente nomeada Capital Europeia da Cultura 2027, faz todo o sentido homenagear não só a cidade como também toda a beleza circundante e riqueza cultural da região, e observar as maneiras como estas inspiram as pessoas de vários pontos do globo. Autor: Vários Formato: pdf Edição: 08.05.2023 Ilustração capa e contracapa: Ana Rosado; Vítor Pisco Editora Recanto das LetrasBaixar e-book

{Cotovia} em Antologia

Sinopse Aquilo que temos vindo a testemunhar desde 20 de fevereiro de 2022, provoca em nós sentimentos complexos, melhor expressados através da arte. Esta antologia recolhe estes sentimentos, e distribui-os para quem neles se reconforta e revê. Para o povo ucraniano, fica a mensagem de acolhimento, não só em tempos de crise, mas sempre. Porque é difícil expressar a empatia por palavras, mas aqui fica uma tentativa, por 32 autores, nacionais e internacionais. Autor: Instituto Cultural de Évora Formato: pdf Edição: 14.08.2023 Ilustração capa e contracapa: Ana Rosado Editora Recanto das Letras

{Apoio à Vítima}

A APAV tem como missão apoiar as vítimas de crime, suas famílias e amigos, prestando-lhes serviços de qualidade, gratuitos e confidenciais. É uma organização sem fins lucrativos e de voluntariado, que apoia, de forma qualificada e humanizada, vítimas de crimes através da sua Rede Nacional de Gabinetes de Apoio à Vítima e da sua Linha de Apoio à Vítima – 116 006 (dias úteis: 09h – 21h). Aquando de um crime, muitas pessoas, para além da vítima directa, serão afectadas directa ou indirectamente pelo crime, tais como familiares, amigos, colegas. A APAV existe para apoiar. Os serviços da APAV são GRATUITOS e CONFIDENCIAIS.

{Notícias Sobre a Ucrânia}

A UE condena com a maior veemência a agressão militar não provocada e injustificada da Rússia contra a Ucrânia. Trata-se de uma violação flagrante do direito internacional, incluindo a Carta das Nações Unidas. Apelamos à Rússia para que cesse imediata e incondicionalmente todas as hostilidades, retire o seu pessoal militar e equipamento de todo o território da Ucrânia, no pleno respeito pela soberania, independência e integridade territorial da Ucrânia dentro das suas fronteiras internacionalmente reconhecidas. A UE apoia os princípios e objetivos fundamentais da fórmula de paz da Ucrânia enquanto via legítima e credível rumo a uma paz global, justa e duradoura.
Em destaque no SAPO Blogs
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