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{Cotovia} e Companhia

Olá Pessoas! Bem-vindas ao blogue da Cotovia onde (m)ando {cotovia}ando! Sigam a cor deste vôo: "Nascemos poetas, só é preciso lembrá-lo. Saber é quase tudo. Sentir é o Mundo." @mafalda.carmona

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{Cotovia} e Companhia

15
Jan24

Tão Inocente


Cotovia@mafalda.carmona

IMG_20240114_203816.jpg

 

 Sorriso  

{Conto}

Se há aquelas pessoas de quem se espera "nunca darem ponto sem nó”, com Benjamim, sucedia precisamente o oposto: tudo andava desatado, franco. Condescendente em ignorar o que não podia alterar, agarrava a possibilidade sobejante, nisso saía ao pai. Essa era a sua característica mais vincada, a alcançar as portas e janelas, deixando-as por fruto de vontade oculta, numa corrente de ar permanente, abertas de par em par.

 

Portas e demais vãos eram o de menos. O pior era o sorriso, inadequado e insistente, sempre presente. Por causa dele, a antiga mestra da escola, Deus a tenha, por afinidade madrasta de Benjamim, deveria estar a dar voltas na sepultura a estas horas, e já desde as matinas, porque o novo professor começava o dia cedo, ao mesmo tempo que as suas duas companhias, o garnisé Sássá e a galinha Serena, excelente poedeira. Decerto por um defeito congénito desconhecido, talvez uma síndrome, indiferentes a quaisquer promessas de liberdade, antevistas através da porta da capoeira, permanentemente aberta, permaneciam em confinamento, perto do ninho, onde despontavam, já, cinco ovos. Ou, talvez lhes acontecera o mesmo que a Benjamim, porventura, habituaram-se ao cativeiro e aos seus captores.

 

Seja como for, uns e outros beneficiam da vigilância oferecida pelo cão Rex e pelo velho pai de Benjamin, a quem fora imposta a escravidão voluntária de, dia após dia, além de guardar o galinheiro de predadores e roedores - tarefa zelosamente cumprida pelo alegre rafeiro - fechar todas as portas, janelas, cancelas, gavetas, armários e portinholas do solar, deixadas para trás por Benjamim como migalhas do percurso dos seus passos, acompanhados da cadência tilintante da bengala guia, os únicos sons a se ouvirem pela rua fora, na ausência de outras pessoas a pé, carros ou bicicletas, no caminho para a escola.

 

Este mistério punha o velho senhor a pensar: por que diabo só teria começado a acontecer após ter ajudado o coveiro a aferrolhar os parafusos do caixão da falecida, a muito respeitada senhora professora Maria Antónia de Vaz Rises da Cunha, esteja em paz onde quer que seja agora a sua morada. Parecia que ao ouvir o som abafado da tampa a fechar, e os torrões a serem lançados sobre a defunta, logo as outras se abriram, e assim permaneceram, em mímica de olhos de boneca, a permanecer abertos mesmo se deitada. Mas, o sorriso era o mais inexplicável, reflectia o velho senhor. E seguia, detrás dos vidros da janela da sala, a progressão da difusa imagem do filho, a maleta numa mão, a bengala ziguezagueando na outra, último modelo comprado no Instituto, com Açucena a orbitar com um chapéu de chuva enorme, em volta de Benjamim. Com o jornal na mão, observou os dois, pequenos apontamentos na paisagem campestre, a patinar desajeitados, na geada acumulada na estrada, e enquanto reflectia sobre o porquê da coisa, disse entre dentes:

 

" - Coitada, parece uma tontinha. Também ela ainda não recuperou da partida da Antónia... o tempo virá a recolocar tudo no seu devido lugar, como deve ser - como sempre deveria ter sido...- Vou ter uma conversa séria com ela, assim não pode continuar. Tem de ocupar o seu lugar por direito. Agora já é possível vivermos juntos, num livro aberto, finalmente."

 

Assim, pouco tempo depois, Benjamim chegava à portaria do edifício da escola, ele esbaforido, ambos ignorando as adversas condições meteorológicas daquela cidade interior no sopé da Serra, quando, amorosa, Açucena se despediu, dando-lhe um beijinho, ao qual não conseguia fugir, mesmo querendo, pois eram da mesma estatura. Concentrou-se em não se enganar no percurso entre os portões da escola e a sala de professores, contornando as poças formadas pela água acumulada no acesso irregular, para não ficar com a roupa molhada pelos salpicos, agora sem a protecção do chapéu de chuva, não tinha mãos para tudo. Pensou consigo mesmo que aos cegos Deus deveria ter dado mais um par de mãos, para conseguirem ver tudo. Esperava manter-se debaixo do telheiro de chapa, para se manter apresentável, coisa difícil de garantir, não tinha outro remédio senão confiar na apreciação de Açucena:

 

" Lindo, está lindo. Bom dia de trabalho, ao meio-dia estou de volta para o levar para o almoço, o paizinho está a contar com o menino."
"Obrigada menina Açucena, até mais" - respondeu.

 

Apressado, Benjamim relembrou a falecida professora Antónia, o som da voz baixa dela ainda a pairar na memória. As lembranças acompanhavam-no ao entrar no edifício, e pesavam mais no coração do que os livros carregados na maleta.
No entanto, nem ele percebia porquê, nem de onde vinha aquele sorriso. A explicação da madrasta não o tinha convencido: os bebés nascem com o reflexo do sorriso, mesmo os que não vêem, como era o seu caso, mas com o tempo, vão controlando esse movimento, e, não o fazer era inaceitável, como tantas vezes foi recordado:

 

"- O menino Benjamim tem de ter tento nessa cabeça e nesse sorriso que sobra na cara. Podia ser tão bonito se aprendesse a não mostrar os dentes, meu filho. E não deixe os seus alunos verem-no assim! Não o vão respeitar. Aliás mesmo pelo respeito, sendo filho de quem é, uma serviçal, não vejo o motivo de tanta alegria, só pode ser falta de juízo..."
"Sim, mãezinha" anuiu Benjamim.
"Se é sim, feche a boca por amor de Deus! Comporte-se, não queremos um filho além de cego, néscio. Finja, se for incapaz de melhor, finja que é normal."
"- Sim, ma..."
"- Não é sim, é o menino ser fraco! Fraco, frágil e inapto. Lamento ser eu a dizer-lho, mas nunca vai chegar a lado nenhum."

 

Sacudindo uma mosca invisível com a mão que segurava a guia, impaciente, mas ainda assim sorrindo, deixando o ar passar entre os lábios e a fenda horizontal, Benjamim pôs de parte estes pensamentos e voltou a concentrar-se na contagem dos passos entre a entrada e a sala. O treino adquirido mas aulas do Instituto não o deixaria perder-se, como perdidos estavam os seus dentes incisivos superiores, a sobressair no brilho do sorriso. O sorriso maldito, que não se inibia de mostrar, assim como a sua falta de assertividade, porventura, esclarecendo as dúvidas do velho pai, umas ausências justificando as outras. Se houvesse culpa a atribuir pela ausência dos dentes, e talvez da assertividade, seria do tempo em que a “mãezinha”, como a madrasta exigia ser chamada, estava viva, com Benjamim do lado errado.

 

Dentro da despensa, fechado, Benjamim soprava as mãozinhas vermelhas e doloridas, fadadas a encontrar na escura prateleira a lata dos cubos de açúcar. Cubos que desapareciam entre os dentes, e nos bolsos, ao som do ponteiro de madeira, em pancadas em cheio na porta, como bombas líquidas de riqueza e doçura a explodir na boca, e pequenos dedos, de Benjamim, enquanto ele fechava os olhos e, caladinho, chamava pela mãezinha, embora soubesse e conhecesse a barreira entre eles, a sua maior cegueira. Ninguém senão ele, desde pequeno, a via, tão cristalina, como o som liso da nudez da cara e pobreza das vestes da sua verdadeira "mãezinha", a menina Açucena, por detrás da bata em quadradinhos pequenos, impotente como se o tecido fosse uma quadrícula de barras de ferro que a tinha aprisionado, emudecida.

 

Por isso, Açucena começou a rezar a Nossa Senhora dos Aflitos, quando achou serem em demasia as vezes em que o pobre filho, desajeitado e a embater sem querer nos móveis, derrubando loiça de porcelana, passava entaipado entre as prateleiras, latas, frascos e enchidos pendurados e enregelados na escuridão de paredes cegas, altas, apenas com um óculo, a dar para o jardim. E foi na forma de um ratinho do campo, inspiração divina, pareceu-lhe ser a mão da Santa, a enviar a mensagem de como resolver o seu sufocar, cada vez mais forte ao som das pancadas na porta, a fazer tremer o granulado branco, na barriga do ratinho. Bem tinha pedido para a deixarem arranjar um gato para tratar do problema, na impossibilidade de trazer o cão Rex para dentro de portas, menos ainda para a despensa, com tanto chouriço a perturbar o juízo, olfacto e mais valia do animal, mas afinal, aquela foi a solução certa a surgir por linhas tortas.

 

Ficou aliviada, agradeceu à Santa, e seguia a sua vida, o melhor possível, a cuidar do casarão, da roupa, dos lençóis de cama e toalhas de mesa, da ida ao mercado, das refeições, da capoeira, da lavagem com que alimenta o porco, e até das tarefas mais sofisticadas, tais como o chá das cinco, implementado pela falecida, ritual incontornável, quer fosse inverno, como verão. Cuida ela, também desde sempre, em todas as estações, do senhor doutor, ou seja, desde os dezasseis anos quando entrou a servir, de tal modo que, agora, mesmo sem a presença da dona da casa, em mais de duas décadas, conhece de cor todos os cantos e recantos, tal como o filho, coitadinho, nem os contactos do pai no hospital central lhe valeram para o curar, mas nem isso o impedira de estudar, e Açucena estava devedora de gratidão eterna ao senhor doutor, por ter pago os médicos, e o curso a Benjamim, o seu menino, agora professor. 

 

Com a graça de Deus, por ora, eram só os três no casarão, o senhor doutor já estava idoso, embora muito lúcido, e era um gosto ouvi-lo, a contar histórias, dele, da aldeia, da família. Já haviam sido muitos, os Cunha, agora era só ele e um irmão, que tinha emigrado, logo depois dos paizinhos do senhor doutor terem ido desta para outra, melhor, com a graça de Deus, que estejam em paz. Em breve seriam quatro, a menina doutora dentista, onde Benjamim estava a fazer um tratamento aos dentes, fora ao funeral. O futuro, sabia bem, que a Deus pertencia, mas ela vira com os seus próprios olhos, que a terra há-de comer, como eles se olhavam, tal como o senhor doutor olhou para ela, há muitas noites atrás, como o garnisé Sássá olhava para a Serena, e por isso nada menos previa senão o casamento, netos talvez. 

 

Com ou sem casamento, estava, desde o dia em que tinha fincado pé naquela casa, finalmente, tranquila, sossegada, quase poderia dizer, feliz. Morreria descansada, partiria sem peso na consciência, nem preocupações, com a condição de o filho se manter longe dos cubos de açúcar, e só usasse o dos pacotinhos individuais, porque o segredo da maleita gradual a entreabrir a porta da despensa, grão branco a grão branco, até a escancarar para não mais se fechar, estava bem guardado entre ela, o ratinho, e a Santa.


No resto, a mestra tinha toda a razão na sua doutrinação, debitada na forma de ditames populares, quando relembrava, falando com desdém na voz para o seu doce menino Benjamim, o seu preferido: "Quem ri por último ri melhor". Pobre menino, que, graças a Deus não era surdo, mas não merecia ouvir tamanhos disparates, benza-o Deus Nosso Senhor, e que lhe permita manter o sorriso por muitos anos, e sim, pelo meu menino, voltava a fazer tudo outra vez.

Fim.

**

Mafalda Carmona

15.01.2014 | 00:23 hr

 

P.S. Eu, a Cotovia, e o gatinho Sushi, na fotografia que acompanha este post, enviamos a todas vós, Pessoas, votos de uma excelente segunda-feira! O gato Sushi é o mais expressivo na pose, mas a Cotovia e eu também damos o nosso cumprimento, através deste conto, com um sorriso, alegria e algum humor.

Boa semana!

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