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{Cotovia} e Companhia

Olá Pessoas! Bem-vindas ao blogue da Cotovia onde (m)ando {cotovia}ando! Sigam a cor deste vôo: "Nascemos poetas, só é preciso lembrá-lo. Saber é quase tudo. Sentir é o Mundo." @mafalda.carmona

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{Cotovia} e Companhia

26
Fev24

Princesa


Cotovia@mafalda.carmona

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(*)

Carmen

{Conto - advertência: contém violência}

 

Quando vi os ladrilhos de branco asséptico, dos quais na verdade nunca gostei, a aproximarem-se vitoriosos da minha cabeça, foi no dia em que descobri o que o chavão repetido pela querida avó, a mesma que me amara, alimentara, educara e mimara, queria dizer:

 

"Princesa, nunca te deixes maltratar como se fosses um pano do chão." Que aborrecimento, as pingas vermelhas serão difíceis de sair, não da parte brilhante, mas na massa das juntas. O chão começa a dança do vai e vem, na melodia desarmoniosa das tarefas suspensas.

 

Depois viriam os dias a tentar adivinhar por entre os estores eléctricos fechados onde andam os utensílios, sem dar conta se era de dia ou de noite, acompanhada pelos sons esporádicos vindos do exterior da casa, na encosta norte, onde não há muita gente de fora interessada em investir, e nem o gato pendurado na parede a dar as horas me conforta, os olhos em tic-tac-tic-tac, um cronómetro da minha miséria.

 

A porta, por fim, encerrada com um barulho seco seguido dos dois estalidos metálicos, enquanto eu penso no quanto me pareço com um daqueles peixe-espada pendurados no gancho da balança ao pé do hotel da praia, mas aqui não há turistas, não serei espetáculo nem ninguém virá por mim, já foi tempo.

 

Deixei-me ir, não faz sentido esperar por uma mudança, nem nesta, nem das outras vezes. Desta vez ainda é pior, o peixe espada parece estar no meio das minhas pernas, a ocupar o espaço destinado a uma criança, a minha esperança pequenina.

 

Imaginei-me a sair daqui, delírios talvez, mas é só o que tenho. Em três ou quatro dias ele regressará. Com total amnésia, falará com voz suave, as mãos junto ao peito como se estivesse a rezar, um Pai Nosso convertido numa frase em formato de labirinto:

 

"Cármen, outra vez fechada na cozinha, mas qual é o teu problema? Como consegues ser tão distraída, e eu obrigado a viajar por esse mundo para ganhar dinheiro, resolver os problemas para por comida na mesa, pagar as contas, como queres que trabalhe em paz e fique descansado?"

Eu responderei: "Não há problema, não é preciso, tem calma, está tudo bem, tive tudo o que preciso." E apontaria para o frigorífico, a bancada, também ela branca a combinar com o chão, o lavatório, esse era preto, sofisticado, e a destoar o balde no canto, fora de sítio, assim como os sacos de lixo. Ele pousaria os sacos das compras, evitando olhar para mim, mas não esquecendo a reprimenda a acompanhar o gesto: "Vê se fazes estas durarem mais, e quero um bom jantar, estou faminto." Remataria ainda, antes de subir as escadas: "Não te esqueças de pôr vinho na mesa, vamos comemorar."

 

E seria aí, então, a minha oportunidade, pegar na chave da carrinha, sair e ir embora. Deixar ir toda a vergonha. Essa a impedir-me de ter agradecido pela generosidade da Vanda quando veio com o seu amigo para verem o que se passava. Também dela me afastei, afastei-me de todos ao afastar-me de mim mesma. Tal como gostaria de estar a milhas de distância, longe de mim, longe daqui. Dele. Não me sentir como um peixe grande enlaçado numa rede fina demais, o anzol no sítio errado.

 

Mas ele é tão gentil, quando está bem, ou quer parecer bem, é um homem respeitável, amigo dos vizinhos, frequenta a associação e o clube do coração, tem um emprego. Viaja muito. Gosta dos colegas, até lhe dizem não ter culpa da mulher que tem, nem a merece a gritar e reclamar, essa modernice da emancipação é no que dá, e os filmes, só servem para por ideias na cabeça, tudo culpa de não ter uma ocupação, um trabalho, só a pensar em unhas, cabeleireiro e compras, como aguenta, perguntam.



Dizem, nem sei o que dizem, ou se é ele que o diz. O que sei é que desta vez vou conseguir, tenho de conseguir. Apresentar queixa na polícia já não adiantará, nada há para mostrar, os restos de dignidade descartados no chão lavado. Por vezes chego mesmo a dar-lhe razão, a cozinha chega, é o meu lugar, e tenho muita sorte por não precisar de trabalhar fora. Deveria ser grata.

 

Ou seria, se não fosses tu. Nada te direi senão a verdade: "Quando te parecer bom demais para ser verdadeiro, não te deixes enganar, é porque é falso, com enganos nas palavras que as levará o vento, como se estivessem escritas na areia, a contrariar as acções, com a força de pedra, uma e outras a anunciar um futuro que não vais querer, acredita." E outra coisa te digo, hoje foi o último dia do meu passado, isso posso prometer-te, minha filha, se chegar a conhecer-te.

 

Fim

 

Mafalda Carmona(**)

26.02.2024 | 07:30

 

P.S. Este conto foi escrito inspirado na leitura do romance de Margaret Atwood, "A história de Uma Serva" nomeadamente no parágrafo que passo a transcrever:

"(...) Levo a mão enluvada ao trinco do portão, abro-o, empurro. O portão dá um estalido atrás de mim. As tulipas na orla do jardim estão mais vermelhas do que nunca, a abrir, já não são copos de vinho, mas cálices; projectam-se para cima, com que fim? Estão, afinal de contas, vazias. Quando envelhecem, viram-se do avesso, depois explodem devagar, as pétalas são descartadas como cacos. (...)

Foi a última frase, em particular, a motivação a guiar o impulso para escrever todo o conto, sobre um tema preocupante da actualidade, o da violência doméstica, bem como o da desigualdade, lembrando que em Portugal, as mulheres só puderam começar a votar em 1966, e que muito ainda está por fazer no que diz respeito à igualdade de direitos.

Desejo a todas vós, Pessoas, uma excelente semana! Para quem está em recuperação, votos de rápidas melhoras.

Boa segunda-feira!

(*) Imagem feita com recurso a fotomontagem de pessoa não real.

(**) Não escrevi este conto com A.O.

 

06
Out23

Céu

{Desafio 1foto1texto} E se...#11


Cotovia@mafalda.carmona

IMG_20231006_004400.jpg

 

Poema Tanka #11

E se... o Céu fosse uma prisão?

**

Sol que logo cega,
Entre as grades do desejo,
Guarda de azul fogo.

*

Saudade em pó de nuvens,
Coração em viagem.

****

Mafalda Carmona

05.10.23 | hr. 23:32

 

Para ver os desafios anteriores da Cotovia:

E se... chovessem arco-íris? #1

E se... o mar fosse de tecido? #2

E se... as mesas falassem?#3

E se... a divisão não existisse?#4

E se... as letras andassem?#5

E se... fossemos sempre crianças?#6

E se... o tempo parasse?#7

E se... fossemos flores?#8

E se... a palavra tivesse dono?#9

E se... houvesse Paz?#10

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Sinopse A Coletânea “ERA UMA VEZ…ALENTEJO” é uma obra que inclui poemas, fotografias, ou obras artísticas originais cujo tema e foco principal seja o Alentejo, e está abrangida no projeto europeu “Antologias Digitais”. Tendo a cidade de Évora sido recentemente nomeada Capital Europeia da Cultura 2027, faz todo o sentido homenagear não só a cidade como também toda a beleza circundante e riqueza cultural da região, e observar as maneiras como estas inspiram as pessoas de vários pontos do globo. Autor: Vários Formato: pdf Edição: 08.05.2023 Ilustração capa e contracapa: Ana Rosado; Vítor Pisco Editora Recanto das LetrasBaixar e-book

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Sinopse Aquilo que temos vindo a testemunhar desde 20 de fevereiro de 2022, provoca em nós sentimentos complexos, melhor expressados através da arte. Esta antologia recolhe estes sentimentos, e distribui-os para quem neles se reconforta e revê. Para o povo ucraniano, fica a mensagem de acolhimento, não só em tempos de crise, mas sempre. Porque é difícil expressar a empatia por palavras, mas aqui fica uma tentativa, por 32 autores, nacionais e internacionais. Autor: Instituto Cultural de Évora Formato: pdf Edição: 14.08.2023 Ilustração capa e contracapa: Ana Rosado Editora Recanto das Letras

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